A origem dos ambulantes
Desde que o governo Eduardo Paes assumiu, estamos vendo sistemáticas operações de combate ao comércio ambulante. Esse novo capítulo chegou à nossa orla, onde a Operação Intolerância Zero vai e está combatendo os ambulantes nas calçadas e areias.
Boa parte desses trabalhadores partiram para a informalidade e conseguem sobreviver vendendo produtos, muitos de origem duvidosa, nas calçadas. Eles também convivem com o perigo, não apenas do "rapa" — termo utilizado para dizer que a Guarda Municipal está chegando —, mas também com os roubos e a violência da cidade. Além disso, ficam expostos ao clima, enfrentando chuva e sol enquanto tentam vender seus produtos.
Mas e se eu te falar que o ambulante carioca faz parte da cultura e da história carioca? Que eles podem ser considerados patrimônio da cidade?
Tudo o que existe tem uma origem, tem um começo.
Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro Raízes do Brasil, nos mostra que os negros foram sendo empurrados para os subempregos não apenas com o advento do golpe republicano, mas já durante o Império. Os pobres, apesar de boa parte deles ser formada por escravizados, estavam em empregos dos quais a elite passava longe. Já a população negra escravizada foi ocupando subempregos ainda mais baixos, como o de jornaleiro, a prostituição, a venda de frutas, entre outros. Tudo isso para juntar dinheiro e conseguir a alforria, embora ainda perdessem uma parte do que recebiam para seus senhores.
A origem dos vendedores ambulantes no Rio de Janeiro remonta ao período colonial e ao início do século XIX, impulsionada pela figura histórica dos "escravos de ganho". Eram homens e mulheres escravizados que circulavam pelas ruas vendendo alimentos, doces e mercadorias e prestando serviços para repassar o lucro aos seus senhores.
Mas não apenas repassavam o dinheiro aos seus senhores. Muitos desses escravizados ficavam mais de 12 ou 13 horas trabalhando, pois, quando não estavam no "expediente", o que vendiam poderia ser utilizado para comprar sua alforria. Essa modalidade de escravizados de ganho era muito comum em grandes cidades, onde havia maior movimento econômico.
Da Colônia ao Império, homens e mulheres andavam pelos becos, muitas vezes quase sem presença humana, nas vilas e arraiais, denominados "escravos de ganho" por seus senhores brancos.
"Como se tratava de uma atividade com controle indireto, era possível guardar algum dinheiro através da elevação dos preços ou algum tipo de acréscimo quantitativo do oferecido, restando algum capital que, acumulado, possibilitava por vezes a obtenção de alforrias, devidamente indenizadas aos 'proprietários' para conseguir a justa liberdade."
— Diário do Rio, William Bittar
Os escravizados de ganho nada mais eram do que homens e mulheres que andavam pelas ruas das vilas e da capital, comercializando produtos a céu aberto, geralmente em ruas e becos dos grandes centros.
Parte do dinheiro obtido ia para o dono do cativo, enquanto pequenas economias ajudavam alguns a tentar conquistar a alforria. Com a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, aumentaram a circulação e a demanda urbana, pois toda a corte acabou vindo para a cidade. Isso também atraiu diversos estrangeiros para nossas terras, popularizando o comércio de rua, regulamentado de maneira precária pela Câmara Municipal.
Para exercer esse trabalho, o escravizado dessa função "gozava" de autonomia e liberdade de locomoção. Ele podia, inclusive, morar em uma casa qualquer na cidade e só ia à casa de seu senhor para pagar, diária ou semanalmente, a remuneração estipulada. Isso, claro, sempre sob a vigilância do poder local e com a supressão de seus direitos.
Ele não era liberto, e essa sensação de liberdade era falsa, já que, apesar dessa autonomia, o escravizado muitas vezes tinha que levar ao seu senhor uma determinada quantia que lhe era exigida.
"Essa forma de exploração do trabalho escravo atendia aos interesses dos dois lados: os escravos viam uma possibilidade, mesmo que aparente, de liberdade, enquanto os senhores se livravam de gastos com alimentação, vestuário e fiscalização de seus escravos, além de garantir uma renda."
— Studhistoria
Não estou dizendo que não devemos ter controle ou que devemos liberar tudo, mas é preciso entender cada caso desses ambulantes. Os honestos devem ter seu espaço para trabalhar, pois muitos desses trabalhadores enfrentam problemas sociais importantes, como baixa escolaridade e falta de incentivos para melhorar suas condições de vida.
O ambulante carioca não surgiu hoje. Ele faz parte da própria formação social e histórica da cidade. Entender essa história também é uma forma de compreender por que o comércio de rua permanece tão presente no cotidiano do Rio de Janeiro.
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